
Havia um aldeota, maior que qualquer aldeota que você possa conhecer, chamada São Paulo, onde crianças ricas brincavam em seus condomínios fechados sob a atenta supervisão de suas babás e as pobres brincavam na lama. Nessa aldeota morava Blusão Roxo, uma jovem garota, nem rica nem pobre, assim conhecida por não tirar seu blusão de cor roxa, fizesse chuva ou sol. Em sua aldeota de concreto viviam muitas, muitas pessoas, das quais, poucas, Blusão Roxo de fato conhecia. As pessoas das quais a ela eram estranhas, sua mãe já a havia avisado para não conversar, porém, Blusão Roxo dizia poder fazer várias coisas ao mesmo tempo, ela apenas ignorava uma das coisas por algum momento e com certeza em todos os que sua mãe a aconselhou, esta foi a escolhida para se ignorar.
Certo dia sua mãe pediu para que fosse até a casa de sua avó, buscar o molde para um vestido novo que sua mãe faria. E mais uma vez a aconselhou sobre algo que Blusão Roxo já não poderia se lembrar, e assim, puxando o zíper de seu blusão até em cima saiu para a liberdade das ruas, sem olhar para trás. Enquanto caminhava olhava para todos os lados embevecida pela beleza estonteante de sua aldeia. Assim seguiu seu caminho para a casa de sua avó que ficava bem distante, separada de sua casa por avenidas e ruas apinhadas de selvagens. Nesse momento, para atravessar a selvageria, Blusão Roxo teria de pegar uma condução que iria de uma ponta a outra, porem distraída como estava pela beleza da aldeia Blusão Roxo entra na condução errada que para e a deixa no meio da selvageria. Perdida e sem conhecer ninguém Blusão Roxo começa a chorar, quando um carro para por perto e pergunta se a pode ajudar. Neste momento a voz de sua mãe ecoa por sua cabeça dizendo algo que Blusão Roxo não podia reconhecer. Agradecendo a Deus a ajuda do “bom homem” entra no carro, dizendo onde era a casa de sua avó perdendo-se assim dentro de sua aldeia, para nunca mais retornar ao seio dos seus.
Hoje, Blusão Roxo é uma mulher adulta, soropositivo e infeliz, morando em algum país da Europa, falando pouco ou nada da língua, traficada para prostituição. Sem saber onde errou e como a situação atual se deu em sua vida, lembra-se apenas da imagem de sua mãe dizendo coisas que ela já não se lembra mais, na verdade, ela acha que nunca soube realmente o que sua mãe disse, mãe essa que por não escutar, nunca mais a viu. A única lembrança de sua infância perdida fica pendurada em um cabide em seu quarto, seu puído e velho blusão roxo.
Agora chega né...
Cansei novamente.
You know you love me.
XOXO